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Quando Deus não me chamou para servir missão

Esse artigo escrito por Anna Lenhart e adaptado pela Equipe Mais Fé para melhor compreensão.

Desde que tinha 11 anos, eu tinha planejado servir em uma missão. Cresci cercada por três irmãos. Eles eram os cavaleiros que me salvavam quando brincávamos de castelo e os meninos perdidos ao meu lado quando íamos para a Terra do Nunca. 

Eles eram meus melhores amigos, meus heróis, e eu sabia, pois desde que me lembro, sabia que um dia eles serviriam em uma missão de resgate real. 

Meus irmãos passariam dois anos da vida a milhares de quilômetros de distância de mim, compartilhando a alegria do evangelho com pessoas que falavam línguas diferentes e viviam uma vida diferente. E eu sabia, com toda a certeza do mundo, que não os deixaria fazer tão nobre sacrifício sozinhos.

Então, quando me ajoelhei aos 19 anos para pedir confirmação da minha decisão de enviar meus papéis em dois anos, não entendi o vazio que me encheu o peito. Pensei: “Devo ter orado de maneira errada”.  Ou talvez eu tenha orado cedo demais. Eu tentaria novamente em um ou dois anos, quando a missão estivesse mais próxima.

Neste meio tempo, escrevi para meu irmão que estava servindo em Houston. Nas minhas cartas, às vezes de dez páginas ou mais, ele ficava sabendo mais sobre minha vida na escola que qualquer um dos meus amigos ou meu diário.

Comecei a preencher os papeis…

Quando ele voltou para casa, sua recepção teve tudo o que ele tinha direito. O tempo todo, eu orava para saber sobre minha questão sobre servir em uma missão. A resposta era apenas silêncio.

Comecei a me sentir como uma criança de três aninhos chorando no banco de trás do carro. Muitas de minhas orações foram respondidas. Mas sobre a pergunta sobre servir em uma missão eu não recebi nada além de silêncio. 

Minha resposta era estupor atrás de estupor, até pouco antes de eu completar 21 anos. Foi então que recebi uma instrução direta para começar a preencher os papéis para estudar no exterior, no norte da Alemanha.

Eu fui. Talvez o idioma novo pudesse me preparar para servir em uma missão de língua alemã, eu pensava. Eu já falava fluentemente francês, mas, claro, talvez o Senhor precisasse de mim na Alemanha ou na Áustria. 

Esqueci parcialmente da ideia de servir em uma missão depois de anos de oração, mas eu ainda queria saber se este programa poderia ser minha preparação.

Um batismo

Foi meu intercâmbio que conheci minha amiga Wendy. Ela era aluna de estudos internacionais e alguns anos mais velha que eu e bem mais alta. Como nos tornamos amigas e fazíamos tudo juntas, as pessoas perguntavam se éramos irmãs. O engraçado era que nem eu nem ela tínhamos irmã.

Fiquei imensamente grata por Wendy; pela primeira vez na vida, eu era a única Santo dos Últimos Dias em um lugar e eu me sentia desesperadamente solitária. Todo domingo, eu levava uma hora no ônibus no trajeto que me levava até a Igreja. E eu ia sozinha.

A solidão e algumas cutucadas espirituais me forçaram a prestar meu testemunho com apenas alguns dias no programa de intercâmbio.

Eu estava com jet-lag, soluçando e gaguejando palavras longas em alemão. Contudo, senti-me grata pelo Espírito – o único amigo que tinha vindo comigo para esta pequena cidade do outro lado do oceano.

Mas Wendy era minha segunda amizade. Lá pela quarta semana, eu estava morrendo de vontade de trazê-la à Igreja comigo (e ter alguém para se sentar ao meu lado no ônibus). Eu disse casualmente a ela qual ônibus eu pegaria. 

Então, no dia seguinte lá estava ela no ônibus 52 às 08h44. Ela vestia uma saia e estava indo à Igreja pela primeira vez em dez anos. 

Seis meses depois, ela não tinha faltado nenhuma semana à Igreja, ia ao Instituto comigo duas vezes por semana, tinha ido ao templo e tinha recebido um chamado para servir na Letônia.

Servir em uma missão à maneira do Senhor

Essa foi minha aventura. Não usei plaqueta nem bati portas, mas a Wendy encontrou o caminho de volta para casa. E embora eu tenha aprendido muita coisa na Alemanha, muitas vezes penso que fui para lá só para encontrar a Wendy. 

Meu esforço missionário não planejado me ensinou que Deus, na verdade, ama todas as almas e sabe de todas as coisas. Ele, às vezes, nos manda atravessar meio mundo para encontrá-las.

Nunca recebi um chamado para servir em uma missão de tempo integral. Nem quando o Presidente Monson anunciou que as moças poderiam servir aos 19 anos. Nem depois que muitas das minhas amigas alegremente correram para mandar os papéis. E nem depois que orei, e orei de novo. 

Escrevi para minhas amigas. Vi cada uma delas voltar da missão e comecei a me questionar “por que eu não pude servir em uma missão?” “Será que eu era indigna?” “Será que eu tinha medo?” “Provavelmente eu era egoísta”.

Quanto mais eu namorava, mais ciente ficava de do meu status: bonita, legal, mas não excelente. Eu não era valente.

“Mas ela não serviu uma missão”

Quando conheci Ben, estava servindo como a primeira editora-chefe do periódico liberal da Universidade de Utah, o Daily Utah Chronicle. Trinta anos antes, meu pai tinha escrito para o The Chrony defendendo a Igreja de vários artigos difamatórios publicado no jornal. 

Tarde da noite enquanto estávamos esperando a impressão, eu olhava as páginas teste e explicava para os designers de páginas que não, os Santos dos Últimos Dias não odeiam os gays, os bispos não perseguem membros inativos quando eles se mudam e é claro, servir uma missão de tempo integral não é obrigatório.

Quando comecei a namorar meu marido, minha sogra foi bombardeada com comentários do tipo: “Ela parece adorável. Mas ela não serviu uma missão.” “Se ao menos ela tivesse servido uma missão, ela seria perfeita para ele.”

Sabemos muito pouco sobre a missão uns dos outros nesta terra. Poucas pessoas conheciam a missão de Cristo; Ele compartilhou tudo a respeito dela com apenas alguns antes de ir para o Getsêmani.

O comentário na sala de selamento

“Deus nos ama igualmente, mas Ele ama os missionários um pouquinho mais”, o selador disse piscando ao felicitar a noiva e o noivo, que tinham voltado recentemente da missão.

Do outro lado da sala, as sobrancelhas da minha mãe se levantaram e ela chamou a atenção enquanto ria. Meu marido de apenas quatro meses, jogou os braços ao meu redor, e do canto dos olhos vi minha sogra e minha tia estremecerem.

Eu tive a sensação clara que nós todos tínhamos sido elegidos como membros de clube dos esquisitos e excluídos na escola enquanto a garotada legal era convidada para a festa.

O abraço do Ben ficou ali, protegendo-me do que tínhamos acabado de ouvir. E em sua ação havia o choque que alguém não poderia imaginar que Deus ama as moças que servem missão mais do que as que não serviram. O choque ainda maior era que alguém ter a coragem de dizer aquilo em voz alta.

Depois da cerimônia, expliquei que aquela não era a primeira vez que alguém havia me dito que Deus me amava menos porque não servi uma missão. Eu estava acostumada a ouvir aquilo de amigos, de rapazes com quem saí, de muitos pais e até de alguns bispos.

Aprendi a ter confiança e gratidão pelo plano de Deus para mim. Mas ainda me sentia machuavada quando eu era tratada como uma discípula de segunda classe porque esse plano não envolvia 18 meses usando saia e uma plaqueta. 

Mas rodeada por três das mulheres que mais admiro, as quais também não sentiram o chamado para servir como missionárias de tempo integral, a sugestão já não parecia dolorosa ou com ar de julgamento; era simplesmente hilária.

Principalmente porque se eu tivesse acreditado nela, nada poderia ter sido mais prejudicial para a minha autoestima.

Por que não servi em uma missão?

Não acredito que Deus me deu o fora porque eu não era boa o suficiente para Seu campo. Agora eu sei: Eu não servir em uma missão de tempo integral porque Deus me conhecem e me ama. E Ele tinha outro plano e outras necessidades para mim. 

Seu plano era complicado: Envolveu arrastar um bando de universitários de ressaca em Oslo e lembrá-los que a vida é bonita sem vodca ou cerveja. Envolveu ensinar a um amigo querido com a atração por pessoas do mesmo sexo que ele ainda era digno do amor de um amigo.

Também envolveu cuidar da cobertura do jornal da conferência geral na escola. Envolveu tornar-me uma esposa dedicada e mãe de anjos que me rodeiam. E envolveu mais algumas gloriosas voltas e reviravoltas do que consigo contar.

Então naquele dia quando o selador especulou sobre como Deus divide Seu amor entre Seus filhos, eu sorri. Eu sabia da verdade: 

Em primeiro lugar, que Deus nos ama igual, inteira e mais intricadamente do que nossa mente mortal consegue processar.  Seu amor vem independentemente de quem somos ou como vivemos a vida. 

Em segundo lugar, se fazemos parte de Seu reino O buscamos. Não deveríamos medir nossa vida por servir em uma missão ou não. Precisamos ver se servimos a missão Dele para nós.

Isto não é algo numa lista de verificação, não podemos concluí-la em 18 meses ou dois anos, nem mesmo servindo em várias missões como casal. É uma tarefa contínua. De sol a sol, durante a vida toda. E se estivermos à altura, será muito mais grandioso do que qualquer coisa que planejamos para nós mesmos.

Fonte: LDS Living

Veja também: Orar ou jejuar por alguém doente muda a vontade de Deus?

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